Rede Sigma

Desculpem o texto longo. Precisava dizer tudo o que tinha que ser dito. Sinto-me melhor agora… :-) 


Abstract


Acho que todo mundo sabe o quão bem vista a comunidade técnica brasileira é no exterior, né? Nossa capacidade de mobilização, organização e motivação não se compara com nenhum outro canto do mundo. Vindo do mundo Java, acompanhei de perto a evolução dos Java Users Groups e sei bem o quão maduros somos quando comparados a JUGs de outros países. No entanto, ainda não entendi por que nós, técnicos, ainda não refletimos o mesmo nível de maturidade nos negócios. Já que somos tão bons em fazermos coisas juntas, por que raios este mesmo potencial não é usado para geração de negócios, riquezas, empregos e bem estar social? Este post, deveras longo, discute este assunto e faz a proposta de um novo modelo de empreendedorismo, sustentado por princípios de soberania, confiança e propsperidade. Boa leitura.

Não crie empresa, crie empreendimentos!

Eestamos trazendo uma nova proposta para empreendimentos de software. Chamemo-la de Rede Empreendedora (é preciso dar um nome pra ficar fácil de referenciá-la ao longo do texto). A proposta é bem simples e não traz nenhum novo conceito. Sua inovação está no contexto em que será aplicada, com foco no público desenvolvedor de software.

 

A Rede Empreendedora

Imagens dizem mais que mil palavras….. Eis a proposta:

Eu tenho uma ideia que acredito ter um bom potencial de lucratividade.
Só que eu não tenho todos os recursos (tempo, infra-estrutura, design, contatos, habilidade de vendas…) para implementá-la.
Eu verifico se alguém da minha rede de relacionamento possui os recursos dos quais preciso… 


(perceba que não se trata de ferramenta! 
Pode ser um telefonema, um email ou mesmo numa conversa de boteco)

…e ofereço parte dos meus ganhos a quem estiver disposto a me ajudar.
De forma semelhante,  outras pessoas também têm ideias…
…e também buscam apoio em amigos para viabilizá-las.
 
Com o tempo, eu terei participações majoritárias em poucos empreendimentos…

(os meus empreendimentos)
… e participações minoritárias em muitos outros.

(empreendimentos de outras pessoas)
Ganho eu.

Ganhamos todos.


Complexo?

Similares

A primeira vista, parece não haver nada de novo nesta proposta e, de fato, não há! Veja se o modelo sugerido em muito não se assemelha aos itens abaixo:


Mercado de Capitais


Da página de uma corretora da valores:


"Quando uma empresa necessita de dinheiro para expandir seus negócios, investir em uma nova linha de produtos, entre outras finalidades, ela pode utilizar o próprio dinheiro em caixa, resgatar uma aplicação, realizar um empréstimo bancário ou emitir ações do seu capital"


Trazendo à nossa realidade, quando um desenvolvedor aposta muito em uma ideia de produto mas não possui todos os recursos para concretizá-la, ele pode (i) vendê-la à empresa que o contrata, (ii) pagar do próprio bolso os perfis necessários para sua implementação ou (iii) abrir a participação societária a quem estiver disposto a ajudar.


Vender ideias está longe da realidade. Afinal, não faltam ideias no mundo, mas sim, pessoas com capacidade de realização. Financiar suas ideias com recursos próprios é uma boa saída mas, infelizmente, assumiríamos assim todos os riscos do projeto e, infelizmente, não fomos educados pra isso. Restaría-nos, portanto, a última opção, de distribuição de quotas societárias, boa por um lado, prejudicial por outro.


Ao distribuir ações de nosso empreendimento, criamos uma ótima oportunidade de coleta dos recurso de que necessitamos para alavancagem do projeto, o que é ótimo! Afinal, é assim que empresas S.A. fazem para capitalizarem-se sem endividamento.  Entretanto, perpetuamos, nesta estratégia, algumas características 1.0, como as relações societárias e o modelo da escassês, no qual bens valorizam-se na mesma proporção de sua carência no mercado (o que socialmente não é bom) ao contrário do modelo da abundância que diz que:


"consumption of the good by one individual does not reduce availability of the good for consumption by others" e "no one can be effectively excluded from using the good"


A proposta da Rede Sigma tudo a ver com o modelo do mercado de capitais para alavancagem de recursos sem endividamento, com algumas ressalvas:

  • a "bolsa de valores", na verdade, nada mais é que minha rede confiável de relacionamentos, geralmente formada pro outros programadores, como eu, designers, devops e mesmo vendedores;
  • primordialmente, toda negociação é feita com base em troca de serviços (tempo de desenvolvimento, montagem de uma infra-estrutura, espaço em servidores, esforço comercial etc) e não necessariamente dinheiro.
  • devemos estar atentos à perpetuação do modelo de escassês, buscando sua minimização, sempre que possível.

Arranjo Produtivo Local


APLs tem como proposta o agrupamento de toda uma cadeia produtiva em torno de objetivos comuns a fim de pontencializar o ganho coletivo. Pela Wikipedia,



"A articulação de empresas de todos os tamanhos em APLs e o aproveitamento das sinergias geradas por suas interações fortalecem suas chances de sobrevivência e crescimento, constituindo-se em importante fonte de vantagens competitivas duradouras."


Em Brasília, temos a APLTICDF (Arranjo Produtivo Local de Tecnologia da Informação e Comunicação do Distrito Federal), que congrega empresas de diferentes especialidades que lutam em conjunto para potencialização do mercado local de TI. 


Às vezes batizada como Pólo Tecnológico, a proposta merece grande respeito, principalmente pela busca do ganho coletivo, mas ainda assim não resolve o problema específico de potencialização das ideias individuais que todos nós, técnicos, temos.  As APLs hoje,  reúnem apenas empresários (não necessariamente empreendedores), que se usam de uma infra-estrutura política para barganha de benefícios comuns. E se fizéssemos o mesmo entre nós, desenvolvedores de software?! Esta é uma das propostas da Rede Sigma.


Propomos a aproximação não de empresas, mas de indivíduos técnicos, para que, além da potencialização de empreendimentos pessoais, haja também a possibilidade de ganho coletivo de toda a minha rede de relacionamento, num processo convergente de esforços para geração de riqueza e bem estar mútuo. 


Jogo Negócio Sustentável


"O jogo Negócio Sustentável é um jogo de tabuleiro que provoca uma nova forma de pensar, agir e gerar riqueza através de negócios sustentáveis. É instrumento lúdico desafiador de mudança de modelo mental para realizar negócios."


Concebido por um grupo de consultores brasileiros, o jogo propõe um modelo de geração de riquezas através do qual sempre há ganhos individuais, coletivos e para o território onde se opera cada negócio. Para que cada jogador ganhe, é preciso que também haja ganhos para todos os demais participantes, contrariando as regras comuns de mercado.


No jogo, cada jogador (empreendedor) retira uma carta que descreve um negócio a ser realizado. A cada jogador são dados recursos para a realização de negócios, mas não necessariamente um jogador possuirá, num dado instante, todos os recursos exigidos para a concretização do negócio que lhe fora atribuído. Dessa forma, cabe ao empreendedor consultar a mesa de jogo em busca de investimentos e parcerias para a conclusão bem sucedida de sua carta. Em contrapartida, a cada investidor disposto a ceder recursos ao empreendedor necessitado é garantida participação nos lucros do negócio em desenvolvimento.


O jogo não tem fim. Os jogadores é quem devem estipular um ponto de término. Dizem que uma única partida pode durar dias!!! De fato, a cada rodada, ganha o jogador da vez e ganham todos os seus investidores. Muito semelhante ao que propusemos acima, não?


Obrigado @viniciusteles pela dica!


Redes P2P


Fazendo uma analogia técnica, a migração do modelo de empresa tradicional para o modelo de Rede Sigma equivale à mudança do mundo cliente/servidor para as arquiteturas P2P de fornecimento de recursos. Ao invés da distinção exclusiva de papéis (provedor e consumidor de recursos), entramos num formato onde cada membro da rede exerce, simultaneamente, ambas as funções. 


Seja uma transferência de arquivos. 


No modelo tradicional, existe um único servidor que hospeda o arquivo desejado e vários clientes que o acessam para sua obtenção. Nesta estratégia, quanto mais clientes acessando, pior é o desempenho do servidor e da rede. Em outras palavras, quanto mais usuários na rede, pior a rede fica.


Num modelo P2P, por outro lado, a lógica se inverte. Quando o download do arquivo é feito de algum lugar para sua máquina, automaticamente ele se torna público aos demais participantes da rede. Ou seja, quanto mais gente baixando o arquivo, mais gente estará provendo o arquivo para download.  Quanto mais usuários na rede, melhor a rede fica.


Trazendo à nossa realidade, quanto mais gente numa empresa, a priori, pior ela fica. Afinal, quanto mais funcionários, maior será a burocracia e maiores serão as dificuldades de relacionamento pessoal com todos os escalões. Outrossim, a ploriferação de empresas de um mesmo segmento também não é bem vista por empresários tradicionais. No atual modelo, quanto mais empresas, maior a concorrência e menores serão as oportunidades de negócio. Em síntese, quanto mais cheia estiver esta nossa rede de negócios 1.0, pior ela fica, assim como nas arquiteturas cliente/servidor.


Na proposta da Rede Sigma, o crescimento de minha rede de confiança representa, naturalmente (i) mais recursos para colaborar com minhas ideias e (ii) mais ideias com as quais posso colaborar. Isto é, quanto mais cheia a rede, melhor ela se torna. 

Princípios

A Rede Sigma sustenta-se em alguns pilares que orientam seu desenvolvimento.

Soberania


O que aconteceria se, exatamente hoje, os donos da empresa em que trabalha resolvessem fechar as portas e mudarem de ramo? Considerando que tenha sido a melhor empresa em que você já trabalhou na vida, seria uma #putafaltadesacanagem, não? O mesmo seria se, hoje, o Google também resolvesse desligar todos os seus servidores. Quantos emails você perderia com a morte instantânea do GMail? E as fotos que você guarda no Picasa ou os documentos do GDocs? Tudo viraria pó em um piscar de olhos. 


Analise bem e perceberá que vivemos em constante submissão. Praticamente todo o controle de nossa vida virtual está nas mãos de pessoas que sequer conhecemos e confiamos. 


Este cenário foi o que levou Klaus Wuestefeld, em 2004, a elaborar o manifesto daComputação Soberana que, em síntese, defende a liberdade plena para compartilharmos informação e recursos de hardware com os amigos. 


"(…) todos não passavam de súditos. Subjugados por um punhado de ‘autoridades' da internet, conformavam-se às leis arbitrárias, ditadas por elas."


Pelo manifesto do Klaus, devemos ser os donos de nossos próprios narizes e termos absoluta soberania para tomar a decisão que mais adequada julgarmos ser às nossas necessidades.


Levando este raciocínio ao limite, o mesmo se aplica a nossa vida profissional. Afinal, por que delegamos a decisão sobre o que vamos fazer amanhã à uma minoria de empregadores "donos da verdade"? Por que confiamos tanto nos donos das empresas que nos sustentam, públicas ou particulares? Como o Klaus bem disse em seu manifesto, fazemos isso simplesmente porque todos fazem? Não faz muito sentido entregar o controle de nossas vidas nas mãos de quem não confiamos.


E se, assim como no manifesto do Klaus, fôssemos soberanos o bastante para decidirmos qual projeto vamos fazer, qual será nosso esquema de trabalho e qual será a sua perpetuação ao longo tempo? Seria ótimo, não? Oras bolas, MAS NÓS PODEMOS!!! A isso dá-se o nome de empreendedorismo! Então, por que não o praticamos? Sendo simplista, porque fomos educados por toda a vida a sermos submissos e obedientes, e não para questionarmos modelos consagrados. 


Ao subjulgarmo-nos às determinações de um empregador, abdicamos da realização de nossas ideias para a dedicação exclusiva às ideias alheias. Supreende-te, então, o fato de não serem os seus os sonhos por fim concretizados? Nenhuma surpresa, certo? Afinal, nesta situação, a energia gasta para realização de nossos propósitos maiores (não falo aqui de bens materiais) é mínima. Como poderíamos, portanto, estimar qualquer sucesso pessoal? Tudo o que você faz, por fim, é canalizado para o sucesso de terceiros.


Ora, e nossas ideias? E nosso propósito de vida? Conforta-te abandoná-los em prol de uma pseudo-estabilidade profissional? Para uns, sim. Para outros, felizmente, é inadimissível. Estes, utilizam-se da relação empregatícia como instrumento de alavancagem individual. Captalizam-se com o dinheiro dos outros para o financiamento posterior de seus próprios projetos. Seria uma ótima alternativa, se não víssemos tantas brilhantes se auto-sabotarem em gaiolas de ouro, encantadoras num primeiro momento, por potencializar o financimento de projetos pessoais, mas traiçoeiras, ao algemarem seus integrantes em padrões financeiros enviesados 


Através da Rede Sigma, estamos buscando o estabelecimento de novos modelos de sustento, tentando sair das tradicionais alternativas de relação empregado/empregador, valorizando a soberania individual e viabilizando o potencial coletivo de produção de novas ideias.



Sendo soberano, qualquer profissional tem o livre arbítrio para iniciar sua própria rede de empreendimentos para implementação de suas ideias e projetos. Não é necessário pedir permissão a seu empregador e tampouco envolvê-lo no processo. Inexiste qualquer entidade ou organismo regulador que restrinja sua expansão viral. Seja entre seus colegas da faculdade, a turma do Dojo ou amigos virtuais, descubram um propósito comum e sigam em frente. O importante é que, pela proposta, todos têm ampla autonomia e soberania para a mobilização de grupos de empreendedorismo bastanto, para isso, criar coragem, sair na zona de conforto, levantar a bunda da cadeira, #tirardopapel e #botarprafazer. Ligue para aquele seu brother agora e veja se ele nãotem alguma ideia de projeto na qual você possa contribuir. Compartilhe suas ideias com seus amigos e alavanque-as. 


Confiança


Gostem ou não, o mundo é feito de panelas. Você vive em panelas. Panelas regem todas as relações humanas. Panelas, mal vistas em algumas ocasiões são, na verdade, o que de fato criam relações duradouras entre pessoas. Apesar da conotação pejorativa do termo, panelas são, tecnicamente, nossas redes de confiança.


Redes de relacionamentos (o famigerado networking que os autores sobre carreira tanto gostam de falar) podem ser rapidamente criadas. Redes de confiança, entretanto, representam algo mais avançado que só o tempo constrói. Numa rede de confiança, o estabelecimento de elos de segurança, honestidade e conforto entre seus nós cria um ecosistema com amplas vias para o compartilhamento de informações e a mútua colaboração. 


Chamamos, primordialmente, membros de nossa rede de confiança para irem à nossa casa. Qualquer dono de empresa prefere mil vezes mais contratar integrantes de sua rede de confiança, ainda que em 2º ou 3º graus, à seleção de uma chamada aberta de currículos. Essas redes são, portanto, nosso porto seguro de relações humanas. Mais vale depositar créditos no amigo do meu amigo do que em alguém que nunca tenha visto na vida. Torna-se, portanto, uma rede desta natureza, o alicerce mais seguro sobre o qual deveríamos desenvolver um plano de vida de médio a longo prazo. 


Ainda do Manifesto da Computação Soberana, 


"O que determina a intensidade de suas interações com outras pessoas é o grau da confiança que você tem em cada uma delas.


A Rede Sigma deve ser, portanto, acima de tudo, confiável. Como já dito, trata-se de um ambiente para o desenrolar de nosso potencial empreendedor de ideias. Quanto mais confiável forem as relações existentes, mais intensas serão as interações entre seus membros e, naturalmente, maior será o compartilhamento de opiniões e feedbacks, acelerando o ciclo de melhorias e potencializando as chances imediatas de geração de valor.


Prosperidade


O que fazer para que as pessoas sintam-se sempre motivadas a serem sempre melhores? Como evitar que profissionais acomodem-se ao longo de suas carreiras? Como manter aceso o espírito empreendedor em cada um de nós? É possível a manutenção permanente de um ambiente fértil à cultura de ideias? Não temos a resposta a essas questões, mas temos bem clara sua importância.


Modelos tradicionais de trabalho tendem a nivelar por baixo todos os participantes de um grupo, gerando as malditas síndromes da acomodação e do deixe estar. Afinal, por que trabalhar mais, inovar mais ou buscar novas ideias se o reconhe$$imento [sic] no fim do mês $erá sempre o mesmo? 


Alguns setores usam modelos comissionados para gerar motivação constante mas, considerando que a política não se estende a todo  quadro operacional, acaba que a abordagem só empurra o problema para regiões menos expostas do negócio. Ou seja, motiva-se o vendedor, que é a cara da empresa no mercado, e acomoda-se os técnicos, escondidos em algum porão mal iluminado da corporação.


Ademais, a técnica comumente sustenta-se sobre valores de venda, e não sobre o resultado (ROI) de fato gerado, ocasionando um ciclo interno auto-destrutivo. Equanto uns vendem a todo custo, por não terem seus reconhecimento$ associados ao sucesso ou fracasso do empreendimento, outros, limitam-se à operação padrão, já que nem mai$ e nem meno$ lhes será atribuído. 


Há uma fábula bem conhecida entre executivos que diz que, para manter sua equipe sempre ativa, é necessária a adição de elementos que lhes provoquem a busca constante pela sobrevivência. Nesta corrida, alguns morrerão, mas o resultado final será de indivíduos extremamente capacitados a lidarem com o canibalismo do mercado. Pessoalmente, concordo com a estratégia até certo ponto, mas discordo com a forma que algumas grandes multinacionais implementam-na.


Como exercício, responda à questão: que perda teria a sociedade se você morresse hoje (toc toc na madeira)? Se lhe falta resposta, revise seus propósitos e reflita sobre sua real importância para o negócio a que se dedica. No formato tradicional de trabalho, ser ou não socialmente relevante é opcional. Já na abordagem da Rede Sigma, é questão de sobrevivência. Ganha você, por estar em constante atividade mental (a melhor vacina para maus da 3ª idade), e ganha o grupo, por manter-se sempre energizado para a vida. 


Achamos que a Rede Sigma contribui para a manutenção desta excelência individual e coletiva de produtividade. No modelo proposto, cada indivíduo é soberano para implementar os empreendimentos que quiser e estabelecer as relações que melhor lhe aprouver. Dessa forma, cabe a ele manter-se ativo e útil na rede. Por ser um meio naturalmente meritocrático, sustentam-se nela apenas aqueles com melhores ideias e competências de colaboração, gerando um ciclo virtuoso de alta produtividade, inovação e geração de ativos. E, àqueles que não acompanharem o desenvolvimento coletivo, restará a marginalização. Afinal, a Rede é, por essência, dinâmica e a cada instante se refaz.


Autorregulação


Como todo modelo meritocrático (vide software livre), a proposta da Rede Sigma é autoregulável. Por possuir uma dinâmica orgânica, de constante mutanção, sempre há a oportunidade de melhoria contínua. 


Um integrante que não se atualize profissionalmente, perde instantaneamente seu prestígio. Outro que, num instinto de más intenções, utilize-se do ecosistema para benefício exclusivo ou ilícito, será naturalmente descartado em futuras oportunidades. Cada membro desta teia tem apenas uma única chance para vacilar. Ao mínimo sinal de sabotagem, assim como nas relações humanas, perde-se de imediato o elo de confiança que o mantinha ligado ao sistema.


Como as relações de negócio são estabelecidas a cada empreendimento, tem-se sempre a oportunidade de substituir parcerias mal feitas por novos relacionamentos negociais.  Afinal, uma sociedade é o reflexo de um alinhamento de interesses num dado instante de tempo, e não um compromisso que deve prevalecer por toda eternidade. Com o passar dos dias, cada parte de um acordo societário sofre influências específicas e particulares que, a longo prazo, as fazem desenvolver modelos mentais distintos daqueles existentes no início do relacionamento. Com isso, desenrolam-se os conflitos que, a depender da maturidade dos envolvidos, podem desnutrir todo o ativo até então cultivado, prejudicando os próprios donos e todos os que dependem dos empregos gerados pelo empreendimento.


Na Rede Sigma, sociedades são, de fato, o que elas são (o reflexo de um alinhamento de interesses num dado instante de tempo) e não um compromisso eterno de realização conjunta de negócios. A cada nova ideia, cabe ao empreendedor avaliar o estado de sua atual rede de confiança e buscar nela integrantes com mais potencial de contribuição ao empreendimento. A medida que se desenvolvem divergências entre indivíduos que outrora se relacionavam, ocorre o natural enfraquecimento de alguns laços, a consolidação de outros novos e a reconfiguração natural da Rede.

Gênesis

Todos nós temos grandes ideias diariamente. Uns mais, outros menos, mas volta e meia a lampadadinha pipoca em nossa consciência. Por alguns instantes, temos a certeza de ser esta a ideia que faltava para um mundo melhor e que certamente ficaríamos ricos se a puséssemos em prática mas, por estarmos presos a rotinas profissionais, acabamos por abandonar aquilo que poderia vir a ser as próximas grandes inovações da indústria (ou não).


Na SEA, temos plena consciência disso e, além das ideias de seus donos, há tempos buscamos formas de aproveitar o potencial empreendor de nossos funcionários, sem muito sucesso, confesso.


Em Setembro/2007, abrimos nosso blog público com o post Mudanças na TEC que, dentre outras coisas, dizia:


"É mais prejudicial uma grande idéia perdida do que uma má idéia implementada. (…) Então, (…) temos gradativamente  delegado maior autonomia aos SEArenses e agido como facilitadores na empresa para a viabilização do empreendimento de suas idéias. Se vingarem, ótimo, senão, amém."


Em Novembro/2007, dissemos no texto Empreender faz Sentido:


"(…) costumamos, na SEA, dar carta branca a todos aqueles que querem, de alguma forma, mudar o mundo ao seu redor. Não temos ainda cacife para financiar projetos pessoais, mas tentamos ao máximo viabilizar meios para que sonhos individuais sejam realizados. Queremos gente empreendedora na SEA. Queremos fábricas de idéias."


Em Março/2008, foi a vez do post SEA: um celeiro de ideias:


"Nesta nova proposta, todos são convidados a desenvolver suas idéias que, se demonstradas promissoras desde seus primeiros passos (conforme defendido no livro Getting Real), serão abraçadas e incluídas no pacote de produtos e serviços da empresa. Em contrapartida, a empresa permite que a geração de empreendedores dedique-se exclusivamente à execução técnica de suas propostas, disponibilizando toda a infra-estrutura comercial, administrativa, financeira etc, para operacionalização do modelo de negócios proposto."


De 2008 pra cá, frustrados com as tentantivas anteriores, temos cronicamente debatidos sobre novos modelos de empresa. Conversando muito com @alissonvale, principalmente, percebemos que o formato tradicional de empresa, com N sócios e M empregados, não parece mais ser o mais adequado para quem tem perfil empreendedor. Falamos já há algum tempo sobre a criação de um ecosistema de colaboração mútua, através do qual vários empreendedores pudessem se beneficiar individual e coletivamente, mas pouco avançamos em termos práticos.


Paralela a essas discussões pouco conclusivas, emergiu na SEA um movimento interessantíssimo (e preocupador). Sem qualquer envolvimento direto nosso, organicamente aconteceu a formação de núcleos de empreendimentos marginais à atividade principal da empresa. Foram pessoas que, motivadas exclusivamente por seus ideiais, compuseram-se com colegas de confiança para a implementação de projetos de toda sorte. Se, por uma lado, orgulhou-nos assistir o nascimento deste movimento e a maturidade de nossa equipe, por outro, preocupou-se a situação pela divergência de esforços que passamos a ter.


Desde que percebemos a evolução deste movimento, começamos um debate sobre como canalizar todo este espírito empreendedor para um foco comum. 


Chegamos a propor a participação societária da SEA em um dos empreendimentos individuais mas, pela falta de acordo entre os percentuais de participação, foi mais uma tentativa frustrada.


Há cerca de um mês atrás, discutíamos sobre isso em um grupo de amigos (os Agilistas Anônimos) sem, mais uma vez, chegarmos a um ponto prático comum. 


"E aí?

Vamos abrir uma empresa
  - pautado no pensamento 2.0;
  - valorizando aprendizado e ducaralhice;
  - altamente motivada e melhorando continuamente;
  - vendendo consultoria de Scrum, XP e Kanban;
  - e criando produtos de software para uma sociedade melhor

?"

(…)

"Convergência é tudo! E é isso que eu vejo nessa galera.
Seria fantástico poder fazer alguma coisa juntos.

O difícil é o ‘como'… alguma idéia?"


Nas vésperas do OxenteRails tivemos, eu, @rwilli e @brunopedroso uma longa conversa sobre este cenário. Mais uma vez, destacamos todas as inciativas marginais à SEA e debatemos sobre meios de convergência desta energia. Conclusão? Nenhuma :-/


No primeiro dia de Oxente, almoçando com alguns SEArenses presentes (@tulios,@edhana@igallina e @aitherios), falamos um bocado sobre como resolver esta situação, confortável para cada um, mas péssima para todos! A conversa, com o cenário de Ponta Negra ao fundo e regada a peixe e camarão, foi fantástica. Desenhamos possíveis caminhos mas, mais uma vez, não chegamos a um ponto conclusivo.




Foi na #horaextra do segundo dia de evento, no entanto, que os astros se alinharam. 


Sem nunca ter globalizado este debate, integrei-me, expontaneamente, a uma roda de bate-papo que começou com uma sentença semelhante a esta:


"Somos um grupo de profissionais que se admira e se confia. Cada um de nós vive com o resultado de seus próprios empreendimentos. No entanto, pela natureza do que fazemos, não há qualquer alinhamento de propósito em nossos negócios. Será que não estamos desperdiçando um potencial de resultados coletivos muito superiores aos ganhos individuais atuais caso uníssemos nossas forças através da convergência de interesses?"
 

Coincidência ou não, começou ali a mesma discussão em torno da qual há muito refletíamos. E, com a colaboração de um e de outro, o grupo foi crescento, mais e mais pessoas identificaram-se com aquela situação, e foi dali que começamos a desenhar esta proposta, que não representa um fim, mas o início de um grande debate público sobre


"Como idealizar um sistema sustentável de empreendimentos onde pessoas que compartilham uma mesma paixão ou interesse possam se reunir e trabalhar em torno de uma idéia de forma a obter ganhos economicos ou sociais com a sua implementação sem estarem presas umas as outras por meio de uma sociedade civil ou vínculo empregatício?" 
@alissonvale



ou ainda


"Quais as atitudes, ou traços de comportamento que cada um pode adotar, que trazem ganho indivudual, se adotados em isolamento, e ganho ainda maior se adotados em grupo?" 
@klauswuestefeld



Entrei em êxtase desde então. Obrigado @viniciusteles@fagiani@rafaelp e@smergulhao por terem iniciado o assunto.

Público

Que fique claro que não estamos advogando contra a formação tradicional de empresas (N sócios x M empregados) em prol de um modelo exclusivamente empreendedor (empreendedor x empreendor) ! A proposta da Rede Sigma não é universal.  Atributos empreendedorísticos não podem ser generalizados. Nem todo munto tem interesse em correr riscos ou viver em constante desafio. Há no mercado espaço de sobra para quem opta pela segurança, estabilidade e submissão e, os próprios empreendimentos, além de seus criadores, necessitam de pessoas dispostas de neles trabalharem. 


Percebemos então que a Rede é, na verdade, nada mais que alternativa a um perfil muito específico de profissional e não uma nova regra de mercado que substituirá o atual modelo secular.

Poréns

Dos vários poréns que foram levantados em discussões sobre esta proposta, há um que ainda não soube responder.


Será que toda esta ideia não pode nos levar a um padrão mesquinho de comportamento, sempre barganhando algo em troca de todo e qualquer favor?


Será que seremos sóbrios o bastante para distinguir o brother do investidor? Esta preocupação está diretamente relacionada à perpetuação do modelo de escassês mencionado anteriormente….

Feedback

Encarecidamente, peço a todos que deixem sua opinião, positiva ou não. Tenho depositado muitas fichas neste esquema e gostaria da ajuda de todos para evoluí-lo. 


Estamos hoje, na própria SEA, tentando iniciar sua implementação. Estamos chegando ao fim do financiamento de um produto e, para continuar com sua evolução, propusemos sociedade ao grupo de desenvolvedores que o conduzia. Não é ainda um modelo totalmente soberado, mas já é um início. Mantenho-vos informados sobre o aprendizado que tivermos.


[]s
@alegomes


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